segunda-feira, 14 de maio de 2012

na via... (um fragmento)

Morar no centro da cidade vem favorecendo que eu, gradativamente, retome o meu relacionamento afetivo com São Paulo. Assim mesmo, em meio a relacionamentos providencialmente desmoronados, e tantos outros se solidificando com beleza. É bacana estar só neste momento da minha vida. Eu e a cidade. Eu e os pedaços de papel que venho resgatando aos pouquinhos, para preencher com minhas letras ávidas por movimento. Eu e os pedaços de mim mesma, cada vez mais estranhamente integrados, esvaidos...recuperados. Eu. A cerveja no bar da esquina e a conversa perdida numa madrugada qualquer. As conclusões descabidas, tercerizadas, compartilhadas, sem nenhuma razão de ser. Amizade. A lírica que toma forma no afeto do meu acolhimento insistente, descabido. Tudo cabe aqui dentro. Aconchego e Insanidade conversam de maneira cada vez menos intempestiva. No hay disputa.
Os personagens dessa história ganham vida nas nuances do meu autoconhecimento, redescobrimento. Reforma. Re.atado. Estar só no centro permite que eu saia de cena,quando assim for escolhido,  para ocupar-me de mim mesma...
Da gincana existencial das tarefas diárias. Do comunicar-se que não acaba mais: tenho minhas aulas para preparar, tenho trabalhos para corrigir, tenho corações para despertar...e minha fé sem tamanho para fomentar. Sensação de 'estou voltando para casa', como nunca antes percebida.
As luzes da cidade vistas da janela do 14o andar luminescem aqui dentro. Resplandecem todas as possibilidades vindouras. Sorrio nesta noite fria. Em que o relógio da Paulista marca 13 graus.
Não tenho nada a perder e muitas coisas ainda a serem descobertas e vividas. Ensaio de fórmula. Às portas dos 30. Balzac me chamaria de...
Eu. Eu me reconheço neste fragmento, interceptado por milhares de conexões não lineares. Hoje estou com preguiça de pensar em como os olhos dele me faziam bem e a barba por fazer deixava meu queixo áspero. e de todo o resto... Estou na via, nos centros. Dissipada. Disposta, sobretudo. Viva.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

trilha sonora...


***
Foda....

Come into my sleep - Nick Cave and the Bad Seeds

Now that mountains of meaningless words
and oceans divide us
And we each have our own set of stars
to comfort and guide us
Come into my sleep
Come into my sleep, oh yeah
Dry your eyes and do not weep
Come into my slee
p Swim to me through the deep blue sea
upon the scattered stars set sail
Fly to me through this love-lit night
from one thousand miles away
And come into my sleep
Come into my sleep oh yeah
As midnight nears and shadows creep
Come into my sleep
Bind my dreams up in your tangled hair
For I am sick at heart, my dear
Bind my dreams up in your tangled hair
For all the sorrow it will pass, my dear
Take your accusation, your recriminations
and toss them into the ocean blue
Leave your regrets and impossible longings
and scatter them across the sky behind you
And come into my sleep
Come into my sleep
For my soul to comfort and keep
Come into my sleep
For my soul to comfort and keep - my sleep
Come on,
Come on,
Come on,
(repeat and fade)

sábado, 14 de abril de 2012

de volta às origens?

O Madame Satã foi um dos lugares mais marcantes da minha vida. Amizades encontradas, reforçadas, amores ocultos desvelados, sexo por diversão, diversão por si só. Os oito copos de vodka que eu conseguia beber em uma noite (hoje, se beber um já passo mal) me denunciavam que eu tinha muito, muito tempo pela frente.
Eu, desbravadora de conexões que sou, aos 19 anos dizia que frequentava a pista do madame para me conectar a minha identidade, para me reorganizar. E tantos anos se passaram até 2007 (acho) que foi quando a casa fechou.
Dizia aos outros que me sentia meio orfã com o fechamento do Madame, mesmo fazendo muito tempo que 'andar de preto' não tinha mais algum sentido pra mim. Sempre achei isso meio balela e nunca me preocupei muito em defender que participava ou não de algum movimento. Eu me vestia do jeito que eu gostava. Só isso. E sempre foi assim.
Logicamente, o movimento da vida me impulsionou a encontrar outras referências, outros lugares especiais de ressonância. Acho que a gente precisa disso pra sobreviver. Eu preciso pelo menos.
Até que... há uma semana eu retornei ao Madame, que reabriu e agora é só Madame. Já tinha um tempinho que a casa havia reaberto, mas esperei a Re vir p/ SP (que era minha grande companheira de noite) pra gente ensaiar um 'revival básico'.
Foi incrível. O Madame está bonito sem perder a característica supostamente underground. Foi curioso perceber que me reencontrei nos tijolinhos ainda desalinhados da casa e na pista de dança de acordo com os acordes que ressoavam.
Eu e a Re quase apostamos que não conseguiríamos dançar a noite inteira, como fazíamos e para a nossa surpresa chegamos na minha casa (hoje em dia moro bem perto do Madame) as 8 da manhã.
Sim. There is a light that never goes out. E isso me faz muito feliz, porque  percebi que mesmo não sendo mais a mesma (que bom!) eu, em partes, ainda sou.
Sim, o Madame ainda continua fazendo a sua função identitária comigo. Afinal, ainda continuo sonhando enquanto as outras pessoas dançam.  E me senti com 19 anos de novo. Talvez porque, em suma, ou da minha perspectiva existencialista, o tempo não tenha passado. Eu me sinto com o mesmo entusiasmo com/sem motivos (e para que tê-los, afinal?), talvez inclusive, um pouquinho melhorado. E, agradeço por constatar novamente que próxima dança sempre virá...

domingo, 25 de março de 2012

carta extraviada

campo minado aqui dentro. todas as possibilidades de retorno dinamitadas. nem a lembrança, e os sibilantes efeitos de dividir a mesma cama permaneceram. finito. e aí que refaço um caminho já conhecido: mágoa-tempo-movimento-cura, e como o Caio profetiza: sigo tirando novos arco íris da cartola. e integrando novas possibilidades, sem medo. sim... essa é a nossa diferença fundamental: não tenho medo. sei que sou forte, justamente por reconhecer as minhas fragilidades. sou inteira e não recortada. a indignação ainda reside por aqui, mas logo mais se dissipa. eu sei bem que a vida sempre se encarrega de mostrar pra gente os nossos desacertos, e comigo não é diferente. com você também não será... então, não me preocupo em entender a sua confusão idiota. estou preocupada em ficar bem, cada vez mais, e buscar pessoas que realmente mereçam me ter perto. esta é uma carta que você não irá ler. eu a escrevo para mim mesma. como registro, como prenúncio, como princípio de cura.
 a vida me ensinou a esperar muito pouco das pessoas. mas isso é difícil. exercício, tarefa de casa a ser feita ( e eu sempre era advertida por não fazer os deveres de casa). uma vez eu te disse que cada um dá o melhor que tem. e é verdade. então ficamos por aqui (mas agora 4 real). despedida oculta, internamente acomodada. agora há coisas novas: tenho minha casa para cuidar, e são tantas mudanças bacanas. e tenho meus amigos que realmente gostam de mim ao meu lado. porque sou uma pessoa de vínculos sólidos. tenho uma vida de estradas incríveis pela frente... e o que me importa, acima de tudo, é conservar a força e o amor para desbravá-las...

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ainda dói.

Ainda dói quando eu dou play na minha seleção de Dire Straits. Ainda dói quando lembro de todos os encontros inesperados, e da nossa intensidade quase impulsiva. E de pensar que quando duas pessoas se gostam, qual o sentido em ficar longe? Dói porque eu não tento mais entender. E não vejo mais sentido em conversar. Dói quando, todas as vezes que ele me liga para saber como estou, digo que estou bem. E dói porque é sincero. Dói o fato de eu  não entender. Não entender, sobretudo, porque ele ainda me liga (todo dia), e porque eu ainda atendo o telefone.
Dói lembrar do sorvete de tangerina com calda de chocolate e das mensagens recebidas de madrugada por causa da insônia. Dói recordar das nossas discordâncias engraçadas, dele não gostar das minhas saias hippies e eu achar que todas as camisas deles são iguais. E as risadas, e sair de casa as 5 damanhã e esperar a padaria abrir para tomar café...
O meu senso de justiça dói. E a espera por dias mais amenos, às vezes também dói. Os meus ideais elevados dóem, mas a covardia das outras pessoas também machuca. Uma vez, ele me disse que saudade faz com que a gente sinta impotência sobre nós mesmos. E eu não concordei. Não concordo.
Saudade dói. Só isso. Saudade é não saber e não querer saber, como escreveu a Martha Medeiros: " Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer
."
Dói e alivia saber que outras dores virão...

quinta-feira, 15 de março de 2012

recomeçar

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas e não entraves seu uso.
(Cora Coralina)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012